O Serviço

Uma breve história do Transplante Renal

A idéia de dois corpos convivendo no mesmo organismo esteve sempre presente na mente humana. Na mitologia eram comuns as figuras mistas: centauro, esfinge, sereia, fauno, etc. Uma delas, a quimera, que era um ser com corpo de leão, cabeça de cabra e rabo de serpente, emprestou seu nome à Imunologia para definir o convívio de células de indivíduos diferentes, o “quimerismo”. Consta que São Cosme e São Damião implantaram uma perna de um negro morto em um sacristão da Igreja.

O transplante de órgãos e tecidos é uma idéia antiga. O mais remoto trabalho científico conhecido sobre o assunto é do francês Paul Bert em sua tese de doutorado em Medicina, em 1863, “De la greffe animale”. Em 1902, Ulman tentou, sem sucesso, transplantar um rim de porco nos vasos do cotovelo de um paciente. No início do século 20 Carrel desenvolveu a técnica para anastomoses vasculares, que é, essencialmente, a mesma utilizada até hoje. Isto permitiu o desenvolvimento do transplante de órgãos sólidos. Os seus trabalhos levaram-no a ganhar o Prêmio Nobel da Medicina de 1912. Vários experimentos de transplante de rim de animais se seguiram. O primeiro transplante renal humano foi realizado pelo ucraniano Yuri Voronoy em 1933. O rim do doador falecido (homem de 60anos) foi colocado nos vasos femorais de uma mulher de 26 anos e produziu pouca urina por 2 dias. Na década de 1940, Medawar (um cientista inglês nascido no Brasil, onde viveu até a adolescência) fez numerosos estudos de enxertia de pele em soldados queimados durante a guerra e também em animais, caracterizando, assim, a rejeição dos transplantes. Por estes trabalhos recebeu o prêmio Nobel em 1960. Na década de 1950 inúmeros transplantes renais inter-humanos foram realizados, muitos com sucesso cirúrgico e clínico imediatos, porém todos com insucesso no curto prazo, mostrando ser a rejeição o grande entrave ao sucesso prolongado. Confirmando esta constatação, em Boston, o grupo de Merrill relatou grande sucesso com o transplante renal entre gêmeos univitelinos, no qual, evidentemente não havia o fenômeno da rejeição. Foi com a utilização da primeira droga imunossupressora, a azatioprina, no início da década de 1960, logo associada aos corticosteróides, que os transplantes renais passaram a ser um procedimento de sucesso.

Início dos Transplantes Renais no Brasil

A HISTÓRIA DA UNIDADE DE TRANSPLANTE RENAL DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Em 1962 Dr. Emil Sabbaga, então se iniciando na nascente Nefrologia, apoiado pelo Prof. José de Barros Magaldi, introdutor desta especialidade no Brasil, entusiasmado com o sucesso dos primeiros transplantes e visualizando o imenso campo médico que se abria, viajou para Boston como “Research Fellow” do Peter Bent Brigham Hospital. Lá, pode acompanhar de perto o desenvolvimento da nova especialidade médica, o Transplante de Órgãos. Teve o privilégio de ter o encargo clínico de cuidar do primeiro paciente a receber, com sucesso, um rim de doador falecido. De volta ao Brasil dedicou-se a implantar o primeiro programa de transplante renal em nosso meio. Recebeu apoio irrestrito do então professor de Urologia da Faculdade de Medicina da USP, o Prof. Jeronymo Geraldo de Campos Freire, que abriu as portas da clínica urológica. Coordenando uma equipe multi-profissional e, após um longo período de preparo clínico e cirúrgico experimental, foi realizado, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o primeiro transplante renal em 21 de janeiro de 1965. O doador foi o irmão do paciente e o sucesso foi absoluto. Este paciente viveu muitos anos com o rim perfeito vindo a falecer por câncer. Até o final de 1965 mais três transplantes foram realizados com êxito. Este sucesso serviu de grande estímulo para que o programa de transplantes continuasse sem interrupções. Este programa, o primeiro da America Latina, antecipou-se ao de muitos países da Europa e de vários estados americanos. Em 1965 associou-se à empreitada o Dr. Luiz Estevam Ianhez e, em 1966, o imunologista Prof. Nelson Figueiredo Mendes, que criou um pioneiro serviço de imunologia de transplante renal, onde foram realizados os primeiros testes de prova cruzada e tipificação HLA. Na mesma ocasião a anestesista Dra. Carmen Narvaes Bello passou a participar ativamente do grupo.

Em 1967, após a realização de 15 transplantes, foi criada, pelo Conselho Consultivo do Hospital das Clínicas da FMUSP, a UTR - Unidade de Transplante Renal, subordinada à Clínica Urológica, tendo sido designado o Dr. Emil Sabbaga como chefe do setor clínico e o Prof. Campos Freire como chefe cirúrgico. Nos anos seguintes o programa foi ganhando força com a incorporação de profissionais, a ampliação do conhecimento e a divulgação de resultados. A equipe médica que se dedicava ao transplante era diversificada, envolvendo nefrologistas, urologistas, imunologistas, anestesistas e seus respectivos médicos residentes, além da enfermagem que se especializava na área.

Desde os seus primórdios a UTR passou a receber estagiários de diversas partes do Brasil e também da América Latina interessados em conhecer e aprender a nascente especialidade. Passou a ser parte integrante do programa de residência médica em Nefrologia e Urologia, bem como do de pós-graduação em ambas as especialidades. Foi o primeiro pólo irradiador de conhecimento na área, ajudando, desta forma, a criar novas unidades de transplante renal no país.

Nas duas primeiras décadas havia poucas alternativas terapêuticas que se baseavam nos corticosteróides (prednisona e metilprednisolona) e na azatioprina. Outras medidas terapêuticas empregadas como a radioterapia da loja renal, a drenagem do duto torácico, a irradiação endolinfática e a actinomicina D se revelaram sem utilidade clínica. O uso dos anticorpos anti-linfócitos era pouco eficiente e sua produção tinha pouca reprodutibilidade. Progressivamente, à medida que novos imunossupressores iam sendo introduzidos na prática médica internacional, eles o eram também em nosso serviço. Isto permitiu um aumento significativo da sobrevida dos rins e dos pacientes

Em 25 de abril de 1968 foi realizado o primeiro transplante renal com doador falecido. Os próprios médicos da equipe de transplante se incumbiam de fazer a captação dos rins em pacientes internados no Hospital das Clínicas. A abordagem dos familiares para doação era feita exclusivamente pelos próprios médicos as UTR. Criou-se a primeira lista de espera para transplante com doador falecido. O pioneirismo e a atividade desta equipe muito contribuiu para o estabelecimento do critério de morte encefálica. Naquela época, a confirmação do diagnóstico de morte encefálica era feita exclusivamente pelo eletroencefalograma sem atividade elétrica que era feito pelos neurologistas do Hospital das Clínicas. Em 1986 foi criado o SICO – Serviço Interno de Captação de Órgãos do Hospital das Clínicas da FMUSP - incorporando outros profissionais e introduzindo novos métodos de diagnóstico de morte encefálica. O SICO permaneceu em atividade até 1997, quando foi criada a Central de Transplantes da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que passou a coordenar a captação e a distribuição de órgãos de doador falecido, criando-se, assim, a lista única de receptores.

O transplante pediátrico começou em 2 de setembro de 1968. A receptora era uma criança de 12 anos de idade. No dia 26 de março de 1980 foi realizado o primeiro transplante renal em receptor lactente, uma menina com 1 ano e 2 meses de idade.

Em 1970 uma área física específica da clínica urológica foi designada para abrigar a Unidade de Transplante Renal. Constava de 3 enfermarias, uma sala para o pós-transplante imediato e duas salas para diálise (peritoneal e hemodiálise), além de um laboratório exclusivo para exames. Em 1986, a UTR passou a ocupar uma nova área na parte central do 7º andar, com dez enfermarias de dois leitos cada uma.

A partir de 1974 a UTR passou a contar com o Dr. Luiz Balthazar Saldanha que se interessou pela patologia renal e urológica e, particularmente, pela patologia do rim transplantado, tornando-se o primeiro especialista nesta área.

O programa de transplante duplo simultâneo foi iniciado em 7 de março de 1987, quando foi realizado o primeiro transplante de rim associado ao de fígado. Em 16 de junho de 1997 realizou-se o primeiro transplante duplo simultâneo de rim e de pâncreas. Apenas em 2002 foi realizado o primeiro transplante duplo de rim e de coração.

Merece destaque o desenvolvimento de técnicas de ampliação vesical em pacientes com diversas doenças da bexiga, que antes eram considerados não transplantáveis e que passaram a sê-lo rotineiramente. Hoje a UTR tem a maior experiência internacional nesta área.

Em 1975, com o falecimento do Prof. Campos Freire, assumiu a chefia cirúrgica o Prof. Gilberto Menezes de Góes e, após o seu falecimento em 1985, o Prof. Sami Arap. Com a aposentadoria do Dr. Emil Sabbaga, em 1996, o Dr. Luiz Estevam Ianhez assumiu a chefia clínica da Unidade de Transplante Renal. Em 1985, o Laboratório de Imunologia passou a pertencer ao Instituto do Coração, assumindo a chefia o Prof. Jorge Kalil Filho.

Em 2009 foi criado o cargo de professor titular de transplante renal na disciplina de Urologia e o Prof. William Carlos Nahas tornou-se, assim, o primeiro titular nesta área, assumindo a chefia cirúrgica. Na mesma ocasião o Dr. Estevam se aposentou e assumiu a chefia clínica o Dr. Elias David-Neto.

O trabalho conjunto dos nefrologistas, cirurgiões, imunologistas e de diversos outros especialistas de outras áreas permitiu um grande desenvolvimento de aspectos médicos e científicos ligados ao transplante renal. Um grande número de estudos e teses foram realizados, resultando em numerosas publicações tanto em revistas brasileiras como em periódicos internacionais.

Autor

Luiz Sérgio Fonseca de Azevedo